01. Um certificado verde, como Leed ou Aqua, é garantia de uma construção sustentável e de elevado padrão de desempenho? Os critérios dessas certificações correspondem à realidade brasileira?
Até mesmo os estudos norte-americanos que comparam o desempenho de edifícios certificados com outros que não o foram não mostram muitas vantagens significativas da certificação em termos de energia, que é certamente o ponto mais forte do Leed. Existem prédios certificados que apresentam desempenho superior à média e outros, também certificados, com desempenho bastante abaixo da média. Na minha visão, as certificações ainda não dão essa garantia, e por vários motivos. O primeiro é que é possível alguém construir visando um certificado e escapar da sustentabilidade, porque é possível atender a alguns critérios e pontuar sem de fato tomar medidas para reduzir o consumo de energia. Por exemplo, alguém coloca uma máquina de ar condicionado de alto desempenho, mas não toma medidas para reduzir significativamente o calor que passa pelo envoltório. O certificado pode dar uma aparencia sustentável a uma edificação que não tem preocupação nenhuma com a sustentabilidade. A certificação, na minha opinião, é apenas um instrumento de comunicação e me parece muito difícil montar uma certificação totalmente à prova de falhas, especialmente no atual estágio do onhecimento. A certificação é sujeita a surpresas. Precisa do compromisso do projetista, do construtor e do usuário, porque a sustentabilidade é um compromisso de projeto, de execução e de uso e operação do prédio. Se alguém do processo falhar, não adianta ter todos os certificados do mundo. Outra coisa: não temos nenhum certificado adequado à realidade brasileira. O Aqua passou por uma adequação um pouco maior, mas o Leed não tem absolutamente nada a ver com a nossa realidade - ele padroniza soluções técnicas pensadas para uma realidade norte-americana muito particular. Não há nenhuma preocupação com a informalidade, porque eles vêm de um mundo onde a informalidade é de 2% a 5%, e não 40% ou 50%, como aqui. Com isso, podemos ter um prédio certificado cujos fornecedores têm trabalhadores na informalidade. Na verdade, não vamos ter sustentabilidade com edifícios certificados, porque eles vão ser 0,5% do mercado total. O que vai mudar o impacto ambiental é quando os projetos em massa adotarem soluções mais sustentáveis.
02. Ao especificar um material ou mesmo um item de mobiliário, qual a responsabilidade do arquiteto com o descarte desse produto no final de sua vida útil? Que critérios o profissional deve considerar?
A primeira coisa que o profissional precisa perceber é que especificar determinado produto e selecionar o fornecedor é talvez a ação de maior alcance ambiental e social. Porque no mesmo mercado há empresas que fazem extração de matérias-primas de maneira responsável, reparam jazidas, têm filtros em seus fornos, preocupam-se com eficiência energética, têm operários que boas condições de trabalho. E tem a empresa que destrói o meio ambiente sem nenhuma preocupação, não paga seus funcionários, sonega impostos. Existe uma visão bastante nova de que, do ponto de vista ambiental e social, a seleção do fornecedor é um ponto mais importante e crucial que a escolha do do produto. Isso não está em nenhum manual. Não dá para comparar tijolo ou gesso sem saber quais são os produtores. Tem fabricante no Brasil que usa mais energia para fazer um quilo de gesso do que a indústria cimenteira para fazer cimento na década de 1970.
Especificações devem ser muito claras
03. É obrigação do profissional conhecer a cadeia produtiva dos itens que especifica para seus projetos? A quem cabe a responsabilidade de rastrear a cadeia produtiva dos materiais e verificar as condições socioambientais de sua produção?
Eu não acho que o Estado possa resolver uma coisa dessas. É muito complicado. No Conselho Brasileiro de Construção Sustentável nós lançamos algum tempo atrás a “Seleção em seis passos”, um roteirinho web que pode ser adotado por qualquer empresa. Ele permite verificar se o CNPJ do fornecedor existe, e as pessoas ficam surpresas quando descobrem quantos CNPJs impressos em embalagens e notas fiscais não existem. O roteiro também orienta sobre como descobrir se a fábrica tem licença ambiental, se respeita as normas técnicas, a avaliar o perfil de responsabilidade socioambiental da empresa, como identificar a existência do greenwash. Eu trabalho muito com a indústria de materiais e posso dizer que, se existem dois produtos teoricamente iguais e um deles custa 20% a menos, é porque alguém está pagando essa diferença de alguma forma. Raramente é a tecnologia que faz essa diferença no preço e não existe mágica. Na área de construção, são poucos os que gastam mais de 2% ou 3% em marketing, então também não é uma diferença que possa ser atribuída ao marketing. Uma diferença de 20% é muito grande e só pode significar alguma informalidade dentro da cadeia. Os arquitetos têm que abandonar aquela lista de produtos bons e produtos ruins e começar a avaliar os fornecedores com mais critérios. Fora isso, o maior desafio para o arquiteto e para o engenheiro brasileiros é saber combinar os materiais. Tem gente que só constrói com madeira, gente que só constrói com aço e gente que só constrói com concreto, e o mesmo material não representa sempre a melhor solução. Existe um potencial enorme para aumentar a sustentabilidade usando materiais convencionais, feitos por empresas que respeitam os cidadãos, os empregados e o meio ambiente. Os materiais precisam ser utilizados de maneira inteligente. É preciso abandonar as receitas e começar a pensar no projeto. Daí vai surgir uma nova arquitetura, que já se vê fora do Brasil. Outra percepção errada é quanto ao uso da madeira. A madeira de construção do futuro, exceto para acabamentos extremamente nobres, vai ser a madeira plantada, como eucalipto, pinus e teca, porque essas árvores não são nativas, são plantadas e colhidas, e isso nos dá a segurança de estar retirando e não liberando carbono na atmosfera.
04. Quais são os parâmetros para especificar produtos de menor impacto ambiental em seus projetos? Existem selos ou certificações que auxiliem o especificador?
Existe no mundo uma quantidade monstruosa de selos e no Brasil temos vários também. Mas tirando o selo FSC, não dá para ter muita ideia do que os outros significam. Não se pode acreditar em um selo do qual não se conhece o critério. Mais que isso, que esse critério não seja público e anterior ao próprio selo e que não se tenha confiança no processo de emissão. De modo geral, esses selos também representam uma estratégia de comunicação, como as certificações de edifícios. À parte o selo FSC, eu não acredito nos outros, porque a única forma de fazer a escolha ambiental de um produto é usar os conceitos de ciclo de vida. Antes de selo, eu acredito em declaração ambiental de produto. O selo diz que tal produto é bom e o que não tem selo é ruim. A ferramenta do futuro é a declaração ambiental do produto, em que cada fabricante vai informar junto com as especificações quanto de CO2 foi emitido na sua produção, quanto resíduo foi gerado, quanta matéria- prima renovável e não renovável foi usada e quanto de água e energia foi consumido em sua produção. O processo vai levar um tempo, mas com o Building Information Modeling chegando ao mercado para substituir o CAD, já estamos pensando em um sistema que possa ser acoplado ao BIM. Vamos precisar gerar uma base de dados e o fornecedor lançará o modelo 3D do produto junto com as especificações e os dados ambientais. Quando o arquiteto especificar, já arrastará junto todas essas informações e será possível calcular o impacto ambiental daquele produto ao longo dos 50 anos de vida útil do empreendimento. Parece complicado, mas não é.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN Edição 359 Janeiro de 2010